Não sou vencedor
Descobri que não sou um vencedor. A igreja evangélica, ultimamente, vem
batendo incessantemente nesta tecla: se você é crente, é
obrigatoriamente um vencedor. Será?
Bom, tive algumas vitórias bem rumorosas, outras discretas. A
algumas, credito a Deus; a outras, ao meu esforço, capacidade e empenho
próprios. Também tive alguns fracassos retumbantes, e outros
silenciosos. A alguns, credito ao mal externo (o diabo e o mundo); a
outros, ao meu mal interno (minha carne e minha inabilidade).
Isso faz de mim uma pessoa comum. E é isso que a igreja evangélica,
com todo o seu discurso triunfalista, quer mascarar, esconder. Quer
criar, a todo custo, um exército de pessoas de bem com a vida, sem
dores ou sofrimentos, usufruindo toda a alegria do céu aqui e agora.
Deixaram todo e qualquer traço de epicurismo (ou mesmo estoicismo) para
trás e abraçam, sem nenhuma restrição, o corpo moreno, suado e sexy do
hedonismo. Aliás, essa mania de querer perseguir a felicidade a
todo custo tem formado uma geração de gente estupidificada, alienada,
egocêntrica e insensível. Somos um simples reflexo de nossa sociedade
doente.
Quando vemos a Bíblia, não encontramos nela nenhum traço daquilo que
é apregoado hoje em dia. Os vencedores que a Bíblia retrata em Hebreus
11 são pessoas comuns, usadas por Deus, mas que passaram tremendas
angústias, ou tiveram até mesmo mortes violentas. O profeta
Isaías teve seu corpo serrado ao meio; Tiago morreu no fio da espada;
Paulo foi decapitado; Pedro, segundo nos conta a tradição, crucificado
de cabeça para baixo. Isso sem falar de Jesus que, por desafiar todo o
sistema religioso putrefato de seu tempo, foi pendurado na cruz, morte
abjeta àqueles dias. Isso nos demonstra que todos aqueles que ousam
desafiar o sistema religioso putrefato de nosso tempo também terão
destino semelhante.
Sim, Jesus disse que passaríamos por aflições no mundo. Mas também
disse que ele venceu, não nós, e sua vitória sobre o mundo foi a
execução de seu propósito em sua morte. Sim, a Bíblia afirma que somos
mais que vencedores. Mas o contexto de Romanos 8 não me autoriza a ser
irresponsável e a apregoar um estilo de vida róseo. Em todas estas
coisas, diz Paulo, somos mais que vencedores em Jesus. E que coisas são
essas? Trata-se do mesmo argumento de Jesus, ou seja, a vitória sobre o
mundo não é um carrão na garagem e uma vida livre de problemas, mas a
nossa fé (1 Jo 5.4). Permanecer fiel, mesmo debaixo de uma saraivada de
balas por todos os lados, mesmo depois que “companheiros de jornada”
te abandonam, é uma vitória, e daquelas bem sobrenaturais.
Portanto, da próxima vez que resolver ouvir um daqueles mantras
pegajosos que exaltem incessantemente o seu ego e que se esquecem de
mencionar o Filho, pense em Jesus morrendo como um bandido. Lembre-se
do profeta Oséias se casando com uma prostituta, em Jeremias perseguido
por Pasur e jogado em uma cisterna. Mas, principalmente, pense como
apostatamos de modo ruidoso e contínuo da simplicidade do Crucificado,
indo atrás da doce mensagem de Baal, apregoada por
pastores-vendedores-popstars da moda. Caso não sinta nenhum arrependimento ou tristeza com isto, é sinal que Javé não faz mais diferença, e Baal é sua nova realidade.
Via: Blog Revista JC

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