Adão
em Evolução
No
velho embate sobre a origem da humanidade, na arena onde digladiam a
ciência e a religião,a corrente divina, o criacionismo, prevalece
sobre a corrente humana, o evolucionismo. A vitória de Deus e a
derrota de Darwin e Wallace são categóricas. “E formou o Senhor
Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da
vida; e o homem foi feito alma vivente”, Gn 2.7. Adão veio do pó
da terra, do barro oriental. Eva, por seu lado, veio de Adão, de
material celular.
Nesta
linha, Eva fora criada por Deus num estado de desenvolvimento
psicomotor superior ao de Adão. Com o pecado original, as diferenças
entre ambos se acentuaram. Não obstante, as reflexões sobre o tempo
do pré-pecado direcionam a superioridade de material celular de Eva
em relação ao de Adão. A condição de inferioridade adâmica
deixa o homem, metaforicamente é claro, descendente de Darwin e
Wallace, ou melhor, de macaco, enquanto a mulher de Deus. Destarte,
na condição evolucionista, o homem, inicialmente, não era homem,
mas proto-homem, parte macaco, parte ser racional.
Assim,
figurativamente, somos a consequência daquele momento em que o
proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva,
chegou à planície do Éden e viu Eva pela primeira vez. Somente
depois desse encontro, o homem, em evolução e/ou em
desenvolvimento, tem encontrado a ciência da vida ao lado da mulher.
Imaginemos a cena.
O
proto-homem, de queixo caído, escondido pela folhagem, contemplando
aquela maravilha: uma mulher recém-feita, exalando o mais perfeito
aroma. Eva, como Vênus recém-pintada por Botticelli, como Monalisa
recém-oleada por Leonardo da Vinci, com a tinta fresca, se
contemplava na beira do rio Eufrates, os longos cabelos encaracolado
serão como as lãs das cabras que pasciam no monte Gileade, seus
dentes perfeitos faiscavam ao sol do Jardim do Paraíso, seus olhos
eram como os das pombas, sua voz era macia como o veludo e suave como
a quinta sinfonia de Beethoven, seus lábios eram como um fio de
escarlata, favos de mel manam deles, a sua face era qual pedaço de
romã entre as suas tranças, sua pele parda cheirava o nardo, o
açafrão, a mirra, o aloés e toda sorte de árvores de incenso,
sorri para sua própria imagem refletida nas águas cristalinas,
momento de epifania, como o de Narciso. Ao longe, os pássaros,
contentes, chilreavam na floresta.
E o
quase-homem balançando no galho, com muito esforço, formulando um
pensamento com seus neurônios: “Que espetáculo de fêmea, muito
diferente das macacas que eu conheço além do rio Tigre”.
Da
contemplação à ação. Aquele ser desceu dos galhos e se aproximou
de Eva, envergonhado, é claro! Diante de tanta fineza, inteligência
e beleza, o proto-homem dá uma cantada rude, sugerindo que
coabitassem no Paraíso e começassem outra espécie. Eva sorriu,
concordou só para ter o que fazer, mas disse que ele teria que
evoluir muito para chegar aos pés dela. Desde então temos tentado a
não ser proto-homem, primata, mas homem, Adão, para corresponder à
generosidade e magnificência da mulher.
Mario
Ribeiro Morais


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