quinta-feira, 12 de junho de 2014

Adão em Evolução


 Adão em Evolução

No velho embate sobre a origem da humanidade, na arena onde digladiam a ciência e a religião,a corrente divina, o criacionismo, prevalece sobre a corrente humana, o evolucionismo. A vitória de Deus e a derrota de Darwin e Wallace são categóricas. “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente”, Gn 2.7. Adão veio do pó da terra, do barro oriental. Eva, por seu lado, veio de Adão, de material celular.
Nesta linha, Eva fora criada por Deus num estado de desenvolvimento psicomotor superior ao de Adão. Com o pecado original, as diferenças entre ambos se acentuaram. Não obstante, as reflexões sobre o tempo do pré-pecado direcionam a superioridade de material celular de Eva em relação ao de Adão. A condição de inferioridade adâmica deixa o homem, metaforicamente é claro, descendente de Darwin e Wallace, ou melhor, de macaco, enquanto a mulher de Deus. Destarte, na condição evolucionista, o homem, inicialmente, não era homem, mas proto-homem, parte macaco, parte ser racional.
Assim, figurativamente, somos a consequência daquele momento em que o proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva, chegou à planície do Éden e viu Eva pela primeira vez. Somente depois desse encontro, o homem, em evolução e/ou em desenvolvimento, tem encontrado a ciência da vida ao lado da mulher. Imaginemos a cena. 



O proto-homem, de queixo caído, escondido pela folhagem, contemplando aquela maravilha: uma mulher recém-feita, exalando o mais perfeito aroma. Eva, como Vênus recém-pintada por Botticelli, como Monalisa recém-oleada por Leonardo da Vinci, com a tinta fresca, se contemplava na beira do rio Eufrates, os longos cabelos encaracolado serão como as lãs das cabras que pasciam no monte Gileade, seus dentes perfeitos faiscavam ao sol do Jardim do Paraíso, seus olhos eram como os das pombas, sua voz era macia como o veludo e suave como a quinta sinfonia de Beethoven, seus lábios eram como um fio de escarlata, favos de mel manam deles, a sua face era qual pedaço de romã entre as suas tranças, sua pele parda cheirava o nardo, o açafrão, a mirra, o aloés e toda sorte de árvores de incenso, sorri para sua própria imagem refletida nas águas cristalinas, momento de epifania, como o de Narciso. Ao longe, os pássaros, contentes, chilreavam na floresta.
E o quase-homem balançando no galho, com muito esforço, formulando um pensamento com seus neurônios: “Que espetáculo de fêmea, muito diferente das macacas que eu conheço além do rio Tigre”.
Da contemplação à ação. Aquele ser desceu dos galhos e se aproximou de Eva, envergonhado, é claro! Diante de tanta fineza, inteligência e beleza, o proto-homem dá uma cantada rude, sugerindo que coabitassem no Paraíso e começassem outra espécie. Eva sorriu, concordou só para ter o que fazer, mas disse que ele teria que evoluir muito para chegar aos pés dela. Desde então temos tentado a não ser proto-homem, primata, mas homem, Adão, para corresponder à generosidade e magnificência da mulher.



Mario Ribeiro Morais


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